1640-1659
Pense-se no cotidiano do Seridó, na casa varrida com cuidado ao amanhecer, nos preparativos atentos para a Festa de Santana, na conversa solta e ritmada da feira de sábado.
Gestos simples, repetidos de geração em geração, que parecem nascer apenas do hábito, mas que, na verdade, carregam uma memória antiga, forjada muito antes de o Seridó existir como o conhecemos. São marcas de um povo que atravessou oceanos, fugiu da perseguição e encontrou, nas vastidões interiores do Nordeste, um lugar onde pudesse sobreviver, adaptar-se e continuar sendo quem era.
Essa história não repousa apenas nos livros nem se limita aos arquivos. Ela corre silenciosa no sangue, nos costumes, na forma de organizar a casa, de preparar o alimento e de celebrar a vida.
O sertanejo do Seridó, muitas vezes sem o saber, preserva práticas herdadas de hebreus e judeus perseguidos pela Inquisição europeia, homens e mulheres forçados a assumir publicamente o cristianismo, mas que mantiveram, no recato do lar, os fundamentos de sua fé e de sua identidade.
Esses cristãos-novos encontraram no Seridó um refúgio distante do controle rigoroso da Coroa e da Igreja, onde puderam reconstruir suas vidas e lançar as bases de uma economia própria, sustentada pela criação de gado, pelo couro, pela carne e pelo queijo que abasteciam o litoral açucareiro.
Até o nome da terra parece ecoar essa travessia. Uma das hipóteses mais recorrentes associa “Seridó” ao termo hebraico She’erit, que significa “o que restou”, “os remanescentes”. É uma palavra carregada de simbolismo, pois nomeia aqueles que sobreviveram à perseguição e recomeçaram longe de sua origem.
O mesmo vocábulo atravessou continentes e reapareceu na fundação da sinagoga Shearith Israel, em Nova York, criada em 1654 por judeus vindos de Pernambuco. A palavra, a experiência e a memória são as mesmas, ligando o sertão nordestino a uma história maior de resistência e continuidade.
No interior das casas, essa herança encontrou abrigo. Para escapar à vigilância inquisitorial, o lar tornou-se um espaço sagrado, quase um templo doméstico, onde cada gesto de limpeza, cada cuidado com a entrada e com a água, adquiria um significado que ia além da simples higiene.
Varrer a casa da porta para dentro, nunca permitindo que o lixo cruzasse a entrada principal, expressava o respeito por um espaço considerado puro. O agricultor ou o vaqueiro que chegava pelos fundos, lavava pés, mãos e braços e fazia uma breve pausa olhando o horizonte repetia, sem saber, um antigo ritual de purificação física e espiritual.
A bacia de água e a toalha oferecidas às visitas eram sinais de hospitalidade e acolhimento, enquanto o cuidado em não levar à boca o copo usado para retirar água do pote preservava a pureza de um bem compartilhado por todos.
A própria noção de família no Seridó reflete essa herança. Mais do que pais e filhos, a família se estendia como uma tribo, incorporando vizinhos, compadres, afilhados e agregados. O costume do padrinho de fogueira, que ampliava os laços para além do sangue, traduz essa lógica comunitária de proteção e agrupamento.
A casa sertaneja, com seus espaços hierarquizados, também revela essa cultura, tipo a sala de visitas, mais formal, destinada aos de fora; a sala de jantar, reservada aos próximos; e a cozinha, coração da casa, acessível apenas aos que pertencem ao círculo íntimo.
À mesa, a memória continuava viva. A carne de sol, preparada com cuidado para retirar todo o sangue antes de ser salgada e exposta ao sol, obedece a um antigo princípio hebraico que proíbe o consumo do sangue, entendido como portador da vida.
O que parecia apenas técnica de conservação era, na origem, um gesto ritual, uma forma de respeitar a criatura abatida e devolver à terra aquilo que lhe pertencia. A recusa de muitas famílias em consumir carne de porco também guarda raízes profundas. Para os cristãos-novos, evitar esse alimento exigia justificativas disfarçadas, pois a proibição religiosa não podia ser declarada. Com o tempo, a razão se perdeu, mas o costume permaneceu, transformado em preferência cultural.
Esse ritmo sagrado não se limitava à alimentação. Ele organizava o tempo da semana, das festas e da oração. O sábado seridoense, marcado pela feira, pelo encontro e pela conversa nas bodegas, reflete o espírito do Shabbat, o dia hebraico de descanso e convivência.
Após uma semana de trabalho árduo, era o momento de ir à cidade, socializar e reforçar os laços comunitários. A Festa de Santana, especialmente em Caicó, ultrapassa o sentido estritamente religioso e assume a forma de um grande reencontro familiar.
Para muitos, o instante mais significativo não está na procissão, mas no café da manhã partilhado em casa, quando a família se reúne em comunhão. A devoção a Sant’Ana também dialoga com essa herança, pois Ana, ou Hannah, é uma figura de grande reverência na tradição hebraica, associada à sabedoria e à generosidade.
Entre as expressões mais comoventes dessa memória está o aboio do vaqueiro. Solitário no curral, sob o céu aberto do Seridó, ele entoa um canto longo e melancólico que ecoa pelos campos. Não é apenas um chamado ao gado, mas uma oração disfarçada, um salmo cantado na única linguagem segura que restava àqueles que precisavam ocultar sua fé. No aboio, a saudade e a devoção se misturam, elevando ao céu uma prece ancestral.
Em resumo, o Seridó revela-se como um vasto repositório de memória viva. Dos rituais domésticos à arquitetura, da culinária às festas, cada costume é um fio que liga o presente a uma história de fuga, adaptação e preservação cultural. Não se trata apenas de tradições folclóricas, mas de sinais de uma fé que se recusou a desaparecer.
Ao observar a avó varrendo a casa, ao participar do café da manhã da Festa de Santana ou ao ouvir um aboio distante, percebe-se que não se vive apenas um hábito herdado. Vive-se a continuidade de uma história antiga, feita de resiliência, identidade e esperança, que atravessou séculos e oceanos para encontrar, no coração do sertão, um novo lar.
Comentários
Postar um comentário